
Atravessando a rua movimentada, do lugar aonde eu moro existe um restaurante Koreano qualquer, desses que parecem invisíveis e antiquados comparados com os letreiros modernos das gigantes lojas de departamentos. Ele simplesmente destoa do resto do bairro.
Não pertence ao cenário de babás vestidas de branco, sofisticados cachorros e belos chapéus. Seu toldo é de péssimo gosto e dispostos na vitrine estão fotos desbotadas de alguns dos pratos que o restaurante qualquer oferece. Basicamente, você não vai reparar no restaurante qualquer enquanto passa pela rua. Se estiver com fome, provavelmente vai dobrar a esquina para comprar um donuts ou um café mal feito do Starbucks. Nada pessoal, é só como as coisas são.
Definitivamente, é um dos poucos lugares da cidade aonde não se ouve os sons dos carros, das pessoas, das buzinas e ocasionalmente do caminhão de bombeiros que insistentemente liga seu alarme até mesmo para resgatar um gato moribundo em cima de uma árvore.
Ele sempre está vazio, não imporá a hora - a não ser pela família que administra o restaurante qualquer. Uma senhorinha de olhos puxados com um ar que emana sabedoria, um pai que constantemente lança olhares desconfiados por cima do balcão de peixes, e um filho de expressão enjetada - que fita a tela do computador como se estivesse assistindo o melhor filme pornô de sua vida.
O restaurante qualquer ganhou o meu amor por muitos motivos. O primeiro deles é a maneira como a comida é disposta na tábua de madeira oriental, cada uma das minúsculas peças foram colocadas ali com o maior cuidado do mundo. De um modo simétrico e equilibrado. Comida simétrica, eu gosto disso. O segundo motivo é a janela, que ocupa toda a lateral do restaurante e o terceiro e provavelmente o mais importante é o fato de aqui, nesse espaço aleatório atemporal existe ordem no caos dos pensamentos.
As escadas estreitas e mal iluminadas levam ao vácuo da cidade grande e a um respiro de alívio. O silêncio é tão grande e palpável que é possível encontra-lo sentado em uma das mesas, com um copo de saque nas mãos. Parece um tanto quanto melancólico esse tal de silêncio. Melhor não cumprimenta-lo.
O restaurante qualquer existe pra gente pensar. Sento na mesa de sempre, e penso, penso muito sobre tudo e também sobre nada.
Penso até querer vomitar todas as palavras pensantes. Penso pra chegar na resposta para todas as perguntas - pensamento que obviamente nunca chega, só chegam mais perguntas, junto com a sopa de soja e o molho agridoce.
Mas não importa, estamos salvos aqui em cima, de todas as pressões e aflições da vida - pelo menos durante o intervalo de tempo de uma refeição.
Quem sabe a resposta venha no próximo almoço.