sobre um não retrato




No mundo perfeito da fotografia utópica, esse homem estaria olhando para a câmera. 
Seus cabelos balançariam com o vento e a sua toalha voando daria o toque final.

não foi assim que aconteceu, de fato.

Entretanto, quando fui buscar o filme revelado no laboratório essa foto em particular me fez sorrir.
Me fez sorrir porque lembrei que fui a  Coney Island uma semana após o furacão Sandy, e nunca vi um lugar tão bonito e triste ao mesmo tempo.
Era inverno,  o parque estava destruído e a praia coberta de entulhos. Um prato cheio pra qualquer pessoa que fotografa. 
Melancolia gratuita, eu gosto disso.

me fez sorrir também, porque estava anoitecendo, eu me virava para ir embora e de repente vi esse homem. 
Ele cruzou o píer vestindo roupas quentes de inverno, colocou os pés na areia e parou de frente para o mar.
 Olhou por alguns instantes, tirou toda a sua roupa, entrou na água e então começou a nadar.
Ele entrou no mar como se fosse um dia quente de verão, ou como se quisesse ser perdoado sabe-se lá por que, sabe-se lá por quem.

e por fim, me faz sorrir porque observei toda a cena, virei as costas e fui embora. Cheguei até a saída da praia e uma aflição maluca tomou conta de mim. 
Eu sabia que se não pedisse para fotografa-lo ia me arrepender para sempre, mesmo se não fosse um bom retrato, mesmo se o filme queimasse e a foto nunca viesse de fato  a existir.

foi só um daqueles momentos, um daqueles segundos .
que bom que eles existem.   



- Posso tirar uma foto sua?
- Pode, mas não fotografa o meu rosto.