João



Esse é o João, 
nós fazíamos uma aula juntos aonde eu descrevia para ele fotografias. 
As descrições primeiro eram bastante objetivas. O que eu estava vendo, aonde estavam os elementos e como era a luz. Depois disso passava-se para aquilo o que a gente sente ao ver uma foto. Se ela transmitia alegria, desespero, confusão.. Se está contando uma história, ou se é algo de um segundo só.
Eu fazia isso por que o João não enxerga, então a única maneira que ele tem de perceber o mundo das imagens, é pelo olhar e interpretação de outra pessoa .
E que responsabilidade gigantesca. como confiar em outros olhos, sendo a fotografia algo que atua de maneira tão particular no nosso imaginário.
No final das contas aquilo o que o João fosse ver, era na verdade o que eu estava vendo e sentindo. Acho que nunca consegui ser clara o suficiente sobre as fotografias que eu descrevia para ele. sempre faltava alguma coisa essencial (provavelmente o não-dito, que a imagem cuida de esclarecer).
Nesse retrato dele, eu estava com os olhos vendados, e quem me guiou foi ele . (De maneira assustadoramente mais precisa do que eu ao tentar contar o que se passa em uma imagem).
obrigado João!

[São Paulo/2011]