peço pra você se sentar na borda da cama, bem ao lado da janela. A luz do sol projeta um triângulo no lençol, te posiciono para que esse triângulo fique bem em cima do seu rosto.
Você senta com dificuldade porque a cama é muito baixa, deixa a bengala descansando ao lado - é uma bela bengala alias. Ela é preta e florida. Penso que se algum dia precisar , vou querer uma igual.
Você me faz perguntas que não tenho paciência de ouvir. Fico moldando sua foto para uma pose perfeita e não presto atenção no que você fala.
Você coloca a mão em um dos olhos e sorri. Gosto porque a luz cerra a sua boca ao meio. Penso que essa pode ser uma boa foto no futuro, uma dessas fotos que a gente tem que inventar uma memória nova para ela, porque a velha já não basta. Foto da saudade, antes mesmo de ela ser.
Ironicamente ainda não lembro o que você me perguntava na hora, estava com pressa, estressada, sem paciência. A gente só quer uma boa foto, pra lembrar depois. Mas lembrar o que? Que estava sem paciência? Não. Uma boa foto pra lembrar uma coisa inventada, lembrança que a foto vai trazer, e não o momento real.
Dureza. Aperto o botão.
Revelo o filme, abro a foto no computador.
Dou um sorriso, parece que agora tenho todo o tempo do mundo.