
Finje estar fumando um cigarro.
Inala a fumaça demoradamente, usando-a como pretexto para estar em silêncio.
Já é madrugada. Uma das mais quentes de janeiro. Existir em noites como esta é tarefa árdua. Faz o cérebro cozinhar mais do que todos os poros juntos.
Começa a pensar sobre coisas.
Mas que coisas? uma porção delas.
Sobre peles brancas e pelos negros e também sobre dois estranhos que por algum motivo se reconhecem em uma multidão. Se reconhecem e estranhamente tem algo a dizer um para o outro. São espelhos incoerentes e completam suas frases um na boca do outro, como uma grande colcha de retalhos
Quando coisa desse tipo acontece, fala-se muito, sobre tudo e qualquer coisa. Para tentar achar uma brecha em todo esse reconhecimento. Afinal, ele não é possível entre dois desconhecidos.
Mas a brecha não aparece, e as palavras jorram desordenadamente. Não param até que um dia, o silêncio também torna-se cômodo. E o silêncio de um se reconhece no corpo do outro, completando-se em um vácuo infinito.