Natal é bixo engraçado.
Um monte de gente se reunindo para comemorar o aniversário de nascimento de um sujeito que já morreu a cerca de dois milênios.
Data fictícia, desculpa para comer carne de porco sem culpa pelas calorias e uma tentativa frustrada de decorar o nome de parentes esquecidos e vizinhos tagarelas.
Independente da pessoa, e da família, os moldes natalinos costumam ser sempre os mesmos.
Já é dia 25. A correria na casa é frenética. A casa em questão pode ser considerada a matriz, a sede oficial de uma família de 10 irmãos - cada um possuindo também a sua própria família. Enfim, gente pra caramba. Festa cheia.
O anfitrião, uma enorme leitoa que repousa em uma bacia azul passa de um lado para o outro, indo de mão em mão. Esta sendo banhada para a ceia. Tratamento vip com tudo o que se tem direito. Injeta aqui, esfrega lá, mais manteiga, mais limão. Coloca a leitoa no forno e deixa ela lá até que o cheio prazeroso da gordura saturada invada os narizes alheios.
Preparar a ceia natalina pode ser considerado uma das valsas mais complexas. é uma dança de fios de ovos, e bandejas de prata pouco usadas, potes de sorvete de limão, tortinhas de cebola, trafégo no forno e amontoados de nozes e cerejas. Tudo isso combinado com o maior fluxo de pessoas do ano, algumas crianças correndo e o tic tac do relógio de madeira antigo na sala - que insistentemente soa as 12 badaladas desde que se conhece por relógio.
E é claro, também há o samba.
No rádinho do quintal Beth Carvalho entoa mais uma vez : 'Sonho Meu/ sonho meu/ vai buscar quem mora longe/ sonho meu'' .
As mesinhas dobráveis já estão lá, empilhadas em um canto. Repousando ao lado de uma colossal geladeira aonde a cerveja gela.
Abre latinha, pega amendoim.
Pause.
Beth carvalho para e agora entra Simone; 'então é natal' Sim, simone, certamente. A cantoria começa. 'Na minha casa todo mundo samba / todo mundo quebra / todo mundo é bamba' .
Ainda é tarde, e as tardes de natal tem o mesmo cheiro, o mesmo gosto e uma despretensão e espontaneidade que só essa tarde em especial tem.
Alguém pega uma vassoura e finge ser uma guitarra elétrica, para acompanhar há sempre o microfone em forma de colher
Ninguém ligou no disk cerveja? Pega o telefone e disca, afinal a cerveja não pode acabar antes da meia noite. Melhor esconder algumas atrás da prateleira aonde está a bandeja da maionese - só pra garantir.
As tias passam de um lado para o outro - sim, as tias, essas mesmas, todos temos algumas. Um olhar de relance, elas sorriem. Parecem cansadas, mas afinal é um trabalho duro mas alguém tem que fazer.
A noite chega. Natal deveria ser conhecido como a data nacional para se usar vermelho e verde. Parece febre. Talvez uma identificação com a árvore brilhante, vai saber. E de repente a casa ganha vida própria e movimenta-se em ritmo frenético. A tv ligada passa o especial com os mesmos atores de sempre.
A avó agarra seu braço e te leva até o sofá aonde 3 senhoras de aparência estranhamente similar aguardam o seu comprimento. Uma delas segura um copo de vinho com gelo, a outra usa brincos de pressão datados provavelmente de antes do nascimento de cristo. Você não sabe quem elas são, mas tem um estranho deja vu de bochechas sendo apertadas em uma infância distante.
O tempo vai passando, e conforme meia noite vai chegando, todos os parentes alteram seus trajetos dentro da casa para circularem a mesa da ceia no mínimo uma vez, esperando soar o sinal para o ataque (a relação entre pessoas e alimento em épocas natalinas muda de maneira assustadora).
O radinho ainda toca um samba qualquer, insistentemente - afinal tem sido assim desde.. desde quando mesmo? Nem me lembro mais. Sei que desde e ponto. Ano que vem tem mais. Até lá, da tempo de esquecer o nome dos parentes mais uma vez e de quem sabe conseguir esvaziar o estômago.
A voz de beth carvalho diminui um pouco de volume, a maioria vai embora - a senhora dos brincos de pressão leva um tapuwear com uma quantidade extraordinária de comida. Talvez comemore o natal novamente amanhã.
Um certo alívio toma conta. Mas um alivio estranho, de certa maneira contraditório. Todo ano é igual, mas daqui alguns anos não vai ser mais. E esse 'alguns anos' parece se aproximar em velocidade assustadora.
O natal serve também para presenciar o efeito do tempo, que devora lentamente gerações.
Um sorriso de cumplicidade cruza a sala. É, parece que partilhamos do mesmo sentimento.
Mas ainda dá tempo de mais uma música, enquanto não somos devorados por completo.